Inteligência Artificial: porque Alan Turing estava correto e John Searle está errado

Quando propôs o famoso Teste de Turing, em seu artigo de 1950 ‘Computing Machinery and Intelligence’, como um teste para avaliar se uma máquina pode ou não pensar, Alan Turing abriu as portas para uma nova ciência dentro da ciência da computação, e que hoje conhecemos como Inteligência Artificial.

Antes dele, o máximo que se esperava de uma máquina era a capacidade de processar informações. Mas no alto de sua genialidade, percebendo o nascimento dos programas e computadores para executarem as mais genéricas aplicações, e o seu potencial futuro de desafiar a capacidade humana, foi capaz de ter a visão do que vivemos hoje, ou seja, as máquinas inteligentes e a Inteligência Artificial.

Mas em 1980, o professor e filósofo John Searle, em seu artigo ‘Minds, brains, and programs’, apresentou fortes argumentos contra a validade do Teste de Turing e de toda a possibilidade de existir de fato uma Inteligência Artificial Forte, ou seja, onde realmente máquinas e robôs fossem capazes de pensar.

Para isso, Searle propôs o não menos famoso, e inteligente, teste do Quarto Chinês, onde, em essência, busca provar a incapacidade de entendimento das máquinas de compreenderem as palavras e o seu real significado, como fazem os seres humanos, ou, como ainda refere seu autor, a sua semântica.

Porque Alan Turing estava correto

Muitos foram os argumentos contra os argumentos de Searle até hoje, mas acredito que nenhum foi convincente o suficiente para encerrar a polêmica. E nem tenho a pretensão de conseguir isso.

Uma prova disso é que, talvez a empresa de tecnologia que atingiu o maior nível de conhecimento e realizações na área, que é a gigante IBM, com sistemas inteligentes como o Deep Blue e o recente IBM Watson, prefira referir e focar seu trabalho ao que classifica de Inteligência Aumentada. Mas acredito que ela de fato seja a empresa líder em Inteligência Artificial, e que portanto está realmente trabalhando fortemente na tese de Turing, mas com um discurso que evita a polêmica desse artigo, e portanto alinhado de forma inteligente com a realidade atual do mercado nessa área. Mas, de forma subliminar, insere em seu produto mais relevante o nome de uma pessoa, o que, além de uma estratégia de marketing inteligente, mostra seu real objetivo na área e visão do futuro dos computadores.

Portanto, gostaria de registrar também minha opinião, tanto pelo fato de que, como consultor, sou seguidamente questionado sobre isso, mas também porque acredito que Alan Turing, seu teste e sua visão de Inteligência Artificial estavam corretos e não estamos muito longe de provar isso.

Apresento minha visão com três argumentos, descritos de forma resumida abaixo:

  1. Da diferença de capacidade de análise semântica e capacidade de consciência e intencionalidade
    Acredito que os argumentos e teste de Searle induzem, de forma inteligente e criativa, a associarmos a capacidade de análise semântica das máquinas, ou artificial, à capacidade de consciência e intencionalidade. Mas essa não foi a pergunta de Turing e sua proposta de teste, resumida em ‘As máquinas podem pensar?’. Ou seja, em momento nenhum Turing pergunta: ‘As máquinas podem ter consciência?’ ou ainda ‘As máquinas podem ter intencionalidade?’. Evidentemente, a filosofia poderá afirmar que não existe pensamento sem consciência ou intencionalidade. Mas qual a prova científica e cabal disso e em que momento se alinham às teorias científicas e evolucionárias de Darwin? Portanto, se separamos a capacidade de análise semântica, podemos imaginar, de forma lógica, máquinas que realmente tenham capacidade de entendimento e pensamento, obviamente artificiais, uma vez que são apenas máquinas, e estamos falando de Inteligência Artificial.
  2. Não se invalida um teste com o outro teste
    O teste do Quarto Chinês não invalida o Teste de Turing, pois não é a prova de que ele não tem solução. Ou seja, penso que para provar que esse último teste é inválido, deve-se apresentar um argumento de que é impossível que ele tenha sucesso no futuro. E o teste do Quarto Chinês não consegue fazer isso, justamente devido ao argumento anterior da separação da capacidade semântica dentro da máquina de Turing. Em outras palavras, será que no futuro realmente não teremos vários sistemas passando no teste de Turing e com capacidade de análise semântica artificial, tão ou mais compententes que os seres humanos?
  3. Da ilimitada capacidade de evolução do ‘hardware’
    Também penso que estamos apenas no começo da evolução do ‘hardware’ e que novas tecnologias, como as baseadas em computadores quânticos, e, por que não, no futuro, com sistemas orgânicos artificiais, poderão conduzir a uma análise semântica ainda mais inteligente, que a que o ‘hardware’ atual permite alcançar. Aliás, será justamente o momento que a Lei de Moore terá sua ruptura, com crescimento em saltos da tecnologia na área.

Na verdade, apenas o tempo irá comprovar quem estava certo ou errado.

Mas, seja como for, prefiro estar comprado com Alan Turing.

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Por Rogério Figurelli em 12/11/2016
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